quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

John Armless Project The Temple Of The Lost Voices ( history ) 2000

O TEMPLO DAS VOZES PERDIDAS

“Registro 2000-12-08


Sabe que nunca vou conseguir definir se este foi o dia que comecei ou que terminei? O tempo por aqui não passa como na dimensão da qual vim. Aqui não há passado, presente ou futuro. As coisas podem estar acontecendo agora ou simplesmente sendo uma repetição do que aconteceu...

Acho que estou sendo precipitado. Para início de conversa, como bom cavalheiro devo me apresentar: meu nome é Marcel. O sobrenome não vai interessar, pois desde que vim parar aqui poucos encontrei que pudessem se comparados a mim. O ser humano é caçado aqui como alimento e proteção. Dizem os raptors, uma série de lagartos humanóides (os mais bonzinhos que já encontrei por aqui, apesar de serem predadores cruéis quando querem) que os “macacos que andam” (somos nós, surpresa, surpresa!) são excelente fonte de carboidratos e outras coisas. Às vezes, quando estou sozinho entalhando este diário, o cheiro de gordura humana queimada nas fogueiras é tanta que vomito sem parar.

Nesta estranha dimensão (que chamo, por falta de nome, do Phoebos, pois parece ser sempre dia por aqui, mesmo quando está um pouco mais escuro) as coisas são bem diferentes. Lembro-me apenas de estar na estrada 40 a caminho da boa a velha Los Angeles, quando algo parecido com um buraco negro (se é que posso chamá-lo assim) apareceu do nada. Para um executivo com tudo à disposição como eu, de celulares a guarda-costas, foi uma grande queda. “Caímos”, como diria certo livro e, de alguma maneira, sabia que nunca mais veria o “paraíso”.

Mesmo em minha dimensão, dizem as línguas das velhas e das contadoras de histórias que, quem encontra algo assim pelo caminho, se torna marcado pelo resto da vida. E assim foi comigo: perdi amigos, família, confiança, vontade de viver e por aí vai. As inevitáveis crises de existência e tentativas de suicídio se seguiram. Cada vez que encontrava um desses buracos sentia uma vontade irresistível de me atirar por ele e, uma vez do outro lado, começar a procurar algo mais aproveitável para fazer com minha vida.

Num dia, após mais um dia de “caçadas” inúteis ao produto que mexe com nossas vidas, atividades remuneradas, passei de novo pela mesma estrada 40. Mas estava a pé. De repente, sem mais nem menos, o buraco surgiu na minha frente. Hipnotizado como um rato na frente de uma cobra, tomei coragem e me joguei por ele.

A primeira coisa que notei foi ter chegado a um lugar que parecia mais o deserto do Novo México. Três sóis queimavam a terra sem piedade. Ao longe várias ruínas de uma cidade que parecia ter características romanas. Ao me aproximar, verifiquei se tratar de um antigo coliseu, que já havia visto dias melhores. Uma estranha criatura, parecendo um leão com cauda de escorpião, se aproximou. Seus modos eram ágeis mas seu olhar parecia ser o de um ancião. Seu nome era Modeinos. Ele me levou a um lugar coberto e cuidou das feridas de meus joelhos. Logo me contou tudo que precisava saber sobre Phoebos.

A terra inteira era uma interminável briga de território entre espécies. Coberto apenas por um manto, pois tive que jogar fora todas as minhas outras roupas para não chamar a atenção), tive de ir até a tribo das Maikanás, salamandras sábias, onde diziam haver uma pítia cega que poderia dizer como fazer para sair de lá.

Porém esses iluminados parecem saber mesmo o que falar: mas suas órbitas cegas assumiram minha direção, minha pele se estremeceu de alto a baixo. “O que você busca”, disse a pítia, com uma voz de quem já havia “visto” muito “só poderá ser encontrado no canto mais profundo do Templo das Vozes Perdidas”.

Aqui faço uma pequena pausa para poder explicar ao leitor o que é o templo. É mais ou menos assim: desde que o mundo é mundo (não importa em que dimensão você se encontra), tudo que é dito simplesmente não desaparece no ar, mas sim vaga sem destino até ir descansar num lugar construído pela primeira civilização da Terra, alguns dizem até mesmo por exploradores provindos do continente de MU, em nossa terra, para este lugar. Trata-se de um edifício construído de uma maneira que lembra uma catedral gótica. Ninguém jamais entrou no edifício, mapeou-o e saiu para contar a história. Se alguém , por um acaso, conseguir um feito desses, pode achar de tudo lá dentro: da fórmula da Pedra Filosofal até rever seus parentes que já se foram desta para melhor há anos. Foi assim que, em companhia de Benephil, uma enorme forma de vida que lembra o boneco de um enorme pássaro azul que eu tinha desde pequeno, que me aventurei pela primeira vez naquele lugar estranho. Depois, vai Deus saber como (pois nem eu sei), criei coragem e entrei por lá várias vezes.


Não sei qual será o caminho a ser tomado. Nem o que encontrarei. Mas já me preparo para o pior.
Marcel”.
Sergio Pereira

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